O cinema e a fotografia possuem laços íntimos evidentes. Pensando em desenvolver um espaço para discussão de cinema na Escola CâMerA ViAjANTe criamos o cine Marabá. Esse nome homenageia a tradicional sala de exibição que existia na Rua Cel. Genuíno entre o centro de Porto Alegre e o bairro Cidade Baixa.
Nesse espaço cinematográfico da CâMerA ViAjANTe exibiremos filmes e faremos debates sobre os temas, as técnicas e a inserção dessas películas na história do cinema. Desenvolveremos estudos sobre a linguagem específica do cinema e a sua relação com a fotografia.
Nesse primeiro momento estaremos escolhendo para exibição somente filmes com fotografia em preto e branco pinçados da cinematografia mundial.
O primeiro filme a ser exibido será "Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups)" (1959) de François Truffaut que marcou a estréia do jovem e irrequieto diretor, que, ao retratar a saga vivida nas ruas de Paris, por um garoto de 13 anos, Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud, acabou por criar uma obra autobiográfica. Essa obra-prima de François Truffaut marca definitivamente a cinematografia francesa e mundial pela linguagem vibrante, envolvente e telúrica.

Para comentar o filme e estimular o debate sobre cinema convidamos Ada Luz que é formada em Letras pela UFRGS com especialização em Pedagogia da Arte. Escreveu e dirigiu o curta-metragem Café Paris e co-roteirizou o longa Enquanto a noite não chega de Beto Souza. Atualmente, estuda história do cinema brasileiro e mundial.

Quando: dia 19 de maio, às 19h15
Onde: Rua 24 de Outubro, 507/101
Exibição gratuita para alunos e ex-alunos da CâMerA ViAjANTe
Apenas 12 vagas
Inscrição pela internet em FALE CONOSCO
Comentários: Ada Luz
(filme e diretor) e Rogério do Amaral Ribeiro (fotografia)

FRANÇOIS TRUFFAUT (1932-1984)
(pesquisa feita por Ada Luz)

Diretor de cinema francês - foi um dos criadores da nouvelle vague, movimento cinematográfico do período pós-segunda guerra mundial, que teve ênfase em produções de baixo orçamento e pesquisas narrativas e artísticas.

Cinéfilo, auto-didata, crítico e cineasta, Truffaut dirigiu 26 filmes, entre eles: Jules e Jim (1962), A Sereia do Mississipi (1969), A Noite Americana (1973) e O Homem que Amava as Mulheres (1977).

A nouvelle vague, assim como o neo-realismo italiano, influenciou o cinema novo no Brasil e seus principais diretores Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues.

Seu primeiro longa-metragem, Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups) de 1959, foi premiado no Festival de Cannes no mesmo ano. O ator Jean-Pierre Léaud interpreta Antoine Doinel, um menino que acaba cometendo pequenos delitos, pressionado pelo ambiente familiar e pela escola. Segundo Truffaut, trata-se de um filme sobre a infância e os relacionamentos entre diferentes gerações.

Filmado em P&B com fotografia de Henri Decae, Os Incompreendidos recebeu um tratamento naturalista, quase documental, que, no entanto, é atenuado pelo formato cinemascope,ampliando a percepção estética dos ambientes e situações escolhidos.

Trailer

 

Cena final

 

Truffaut fala de Antoine Doinel

 

Portrait de François Truffaut parte 1

 

Godard e Truffaut em defesa da Cinemateca Francesa (1968)

Site oficial em inglês
http://www.francoistruffaut.com

Artigo de Carlos Diegues

Sobre François Truffaut, no vigésimo aniversário de sua morte

Publicado na revista francesa Cahiers du cinema e reproduzido pelo jornal O globo
12 de julho de 2204

Quando vi pela primeira vez "Os incompreendidos” ("Les quatre cent coups”) e, em seguida, "Uma mulher para dois” ("Jules et Jim”), eu era um jovem cineasta de uns 20 anos de idade que se iniciava no curta-metragem e aspirava a que meus filmes mudassem meu país e o mundo, forjando um novo e glorioso futuro para o cinema.

É claro, portanto, que aqueles filmes me irritaram muito, ao mesmo tempo que me encantavam secreta e misteriosamente.

Alguns cineastas filmam para a bilheteria, outros para seus amigos, uns terceiros para a história do cinema. François Truffaut filmava para a vida, como se cada um de seus filmes fizesse parte de um elo de acontecimentos que se reproduzem para compor a existência de cada um de nós, seus espectadores.

Ver esses filmes é uma experiência de ensinamentos sem sobressaltos, como se cada um deles não passasse de súbita e necessária lembrança de alguma coisa que, embora clandestina, sem existência reconhecida e declarada, já está previamente inscrita em nossa memória individual ou na própria memória da espécie.

Seus filmes descobrem a nobreza e dão direito de cidadania, no reino de nossas individualidades, a sentimentos que geralmente desprezamos e logo sufocamos como banais, indignos de nosso respeito, sentimentos que quase sempre tratamos de esconder de nós mesmos e dos outros.

Como Jean Renoir antes dele, Truffaut nos condena a contemplar nossas imperfeições como uma condição humana que podemos amar e da qual é possível tirar proveito em benefício de nossa felicidade comum, sem fórmulas ou grandes estratégias, com a naturalidade de uma simples respiração.

Em suma, François Truffaut nos ensina a fazer filmes como quem respira.
http://www.carlosdiegues.com.br/artigos_integra.asp?idA=8

 

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